Revisão da Serie A 2015/16, parte 1

Juventus campeã da Serie A 2015/16 (Getty Images/Zimbio)
Juventus campeã da Serie A 2015/16 (Getty Images/Zimbio)

De antemão, gostaria de registar que este foi o melhor campeonato italiano que já vi. Lógico, não vivi os tempos áureos do futebol no Belpaese, entre os anos 80 e 90, dos grandes craques e times fantásticos, que mexeu com o futebol mundial.

A última era do “futebol romântico”? Ou a primeira era do “futebol globalizado”? Não sei, e nem acho que deveria me preocupar com isso. Melhor aproveitar os registros do passado, curtir o presente e imaginar o futuro. Enfim, o post não é sobre toda essa baboseira saudosista naftaliânica.

Em 2015/16, justamente vimos um campeonato disputado, de alto nível técnico e tático e com todos os roteiros possíveis de uma temporada excitante.

Juventus

Primeiro, a recuperação sem precedentes da Juventus depois do seu pior início de ano. Na 10ª rodada, o time de Massimiliano Allegri tinha apenas 12 pontos, ocupando a 12ª posição com três vitórias, três empates e quatro derrotas. Quem diria que a poderosa defesa bianconera sofreria nove gols em dez partidas? Que dirá perder quatro de dez.

Sem peças importantes como Arturo Vidal, Andrea Pirlo e Carlos Tévez, o time de Vinovo levou um tempo para se reestruturar e Allegri encontrar um novo padrão, testando coisas novas, mas recuperando a confiança e conquistando resultados justamente na velha forma de jogar, com toda a simplicidade e solidez que deu uma campanha inacreditável.

Com Andrea Barzagli, Leonardo Bonucci e Giorgio Chiellini recuperados, volta a defesa a três, sólida e quase impenetrável com Gianluigi Buffon atrás, contando ainda com o promissor Daniele Rugani e o reserva confiável Martín Cáceres. A consistência de Stephan Lichtsteiner e Patrice Evra nas laterais, somado com a energia e habilidade de Juan Cuadrado e Alex Sandro, completaram a base dessa estrutura firme.

Estrutura essa que coexistiu com o trio Sami Khedira, Claudio Marchisio e Paul Pogba. O alemão, um falso craque? Não, um dos jogadores de futebol que mais entendem o esporte, apesar das limitações físicas e técnicas. Ao seu lado, o italiano, um dos mais completos meio-campistas do futebol contemporâneo, se afirmando em nova função, controlando todo o jogo juventino; e também o francês malabarista, que amadureceu nesta temporada, mais consistente e completo.

Inconsistentes no início do ano turbulento, os reservas Stefano Sturaro, Roberto Pereyra, Hernanes, Mario Lemina e Kwadwo Asamoah também cresceram com a recuperação. Não muito diferente dos atacantes, que como todo o time sem confiança e precisão, superou os problemas ao longo da temporada e garantiu gols, apoios e vitórias fundamentais.

Mario Mandzukic, o pivô que amortecia todos os lançamentos de Bonucci, que prendia os zagueiros para Paulo Dybala fazer mágica. Esse garoto não é normal. Seus gestos, a batida na bola, os dribles e fintas, a agilidade e vigor, a leitura de jogo para interpretar, criar e explorar os espaços, desfazer as ricas estratégias defensivas italianas. Tudo isso com 22 anos, seu primeiro em um clube grande, com toda a pressão em volta. Esse garoto não é normal, e a gente agradece.

E se Mandzukic não funcionava, Allegri tinha Álvaro Morata e Simone Zaza. O espanhol, com seu jeito desajeitado, o inconsistente que decide jogos grandes, que carrega a bola de cabeça baixa e supera as defesas, e tem movimentos fantásticos. O italiano, pouco confiável? Explosivo, mas o mais completo dos centroavantes, capaz de simular o croata e o espanhol, e também mostrando seu lado decisivo, garantindo pontos entrando no segundo tempo.

Da 12ª posição na 10ª rodada, para a 1ª colocação na 25ª rodada, após superar o então líder Napoli. Dez primeiras partidas à parte, foram 26 vitórias, um empate e uma derrota. No final das contas, 91 pontos e 29 vitórias, a segunda melhor marca no pentacampeonato. Sabe a defesa que levou nove gols em dez? Foram 20 em 38, a melhor marca juntamente com 2011/12 e 2012/13. Sem precedentes.

Napoli

Segundo, o melhor futebol do campeonato. Maurizio Sarri é um senhor interessante e curioso, o ex-bancário que surgiu nas divisões inferiores do futebol italiano e se tornou o principal treinador da Serie A. Muito convicto das suas ideias, consolidadas ao longo dos últimos anos, conseguiu mudar a identidade futebolística do Napoli, que nos últimos anos cresceu com Edy Reja, Walter Mazzarri e Rafael Benítez.

Com o napolitano, o Napoli o campeonato como o time com a maior média de posse de bola, passes certos e chutes por jogo, além de ser a segunda equipe que mais fez gols e a que menos sofreu gols. Aí outa novidade para os partenopei, que desde que retornaram para a Serie A tiveram times majoritariamente defensivos, que preferiam jogar sem a bola e se destacavam pelos ataques e ataques rápidos e diretos.

Nesta temporada, o Napoli manteve a consistência defensiva de antes, na verdade até melhor, já que dominavam os adversários e controlavam a partida, fazendo da posse de bola outra forma de se defender. Mas também não perdeu o ritmo alto nos ataques, transformando esse domínio da bola, aparentemente lento na saída e na retenção no centro do campo, com rápidas triangulações, tabelas e trocas bem coordenadas com ótimos apoios de todo o time.

Fundamental nessa estratégia o lado esquerdo napolitano. Kalidou Koulibaly se transformou com Sarri, liderando as saídas com técnica e força, assim como Jorginho enfim correspondeu a expectativa deixada nos tempos de Verona, se transformando em um grande regista e mediocentro. (aqui e aqui). Faouzi Ghoulam contribuiu com apoios inteligentes na lateral, funcionando como um facilitador para Marek Hamsík e Lorenzo Insigne.

O eslovaco, o fulcro do time de Sarri, que deu todo sentido ao jogo, participando de todas as ações, da saída na própria à jogada final no último terço. Perdeu os gols que tinha com Mazzarri e Benítez para se transformar em um playmaker fantástico. Partindo da ponta esquerda, Insigne, puro talento, assim como Pogba, mais maduro e completo nesta temporada, com gols e assistências.

Não tão brilhante, mas importantes no jogo sarriano, o trio Hysaj-Allan-Callejón deu outro sentido ao jogo pelo lado direito. Mais força, ritmo e movimentos ricos em apoios e desmarques. O brasileiro era isso para Jorginho e Hamsík, e destaque no pressing mais efetivo, bem coordenado e agressivo do campeonato (aqui). O espanhol, um legítimo raumdeuter, tão desvalorizado quanto Thomas Müller, o grande expoente dessa função: o “investigador” de espaços no último terço, com leitura de jogo e movimentos fundamentais.

O que falar, então, de Gonzalo Higuaín? 36 gols em 35 partidas, recorde na história da Serie A, superando Gunnar Nordahl, o sueco pesado artilheiro entre os anos 40 e 50 pelo Milan. Um grande chutador e finalizador das muitas jogadas napolitanas, o foco do passe final de Insigne e Hamsík e muitos cruzamentos. Mas o argentino não foi apenas gols, contribuindo bastante sem a bola, pressionando a saída adversária e com ótimos apoios para Callejón e Insigne.

Um Napoli fantático, epetaculá, mas faltou coisas para ser campeão. O time de Sarri também levou um tempo para se consolidar e não iniciou o ano com grandes resultados, mas sempre se manteve no topo da tabela, entre líder, segundo, terceiro ou quarto. Encostou em Roma, Fiorentina e Inter, assumiu a liderança em 2016 e a acabou perdendo no confronto direto contra a Juventus. Desde então, diminuiu o ritmo e esteve ameaçado pela Roma, mas manteve a segunda posição e vaga na fase de grupos da Liga dos Campeões.

À primeira vista, o clube de Aurelio De Laurentiis vem numa crescente, aumentando a receita de forma responsável e cresce a cada ano. Mas ainda não compete financeiramente com Roma, Inter e Milan, muito menos com a Juventus. Dessa forma, não tem grandes despesas em salários, aproveitando as grandes vendas para montar seu elenco, o que ainda não garantiu aos azzurri um elenco completo, rico para competir em três competições simultâneas. A volta para a UCL e valorização do elenco pode trazer isso para Nápoles.

Depois, mesmo com um grande time e ótimo futebol, falta atitude. Atitude para manter a forma e ter consistência na temporada, o que nem sempre vem com preparação física e reservas que mantenham o nível. A atitude que dá confiança para garantir vitórias e títulos, exatamente como a Juventus. Mesmo sem jogar bem ou fazer qualquer esforço, vence os jogos. E os campeonatos, consequentemente.

Roma

Terceiro, as incertezas de um projeto caro, que passa por instabilidades, mas que no final consegue bons resultados. Desde que a Roma mudou de administração, com os empresários de Boston de origem italiana Thomas DiBenedetto e James Pallotta assumindo o controle em 2011, na figura do presidente Pallotta, o clube tem pensando grande, com o projeto do estádio próprio, novas receitas, ações na bolsa de valores e o jeito americano de gerenciar.

Não faltaram também investimentos na equipe, na gerencia do diretor Walter Sabatini, e a Roma é a que mais gastou no mercado italiano desde então, assim como arrecadou consideravelmente em vendas. Em campo, depois das experiências frustadas com Luís Enrique e Zdenek Zeman, conseguiu consistência com Rudi Garcia, disputando o scudetto com a Juventus e levando a equipe para a Liga dos Campeões. Os títulos, porém, não vieram. Como sempre, faltava aquela coisa a mais, e a romada impedia mais sucesso.

Nesta temporada, o francês seguiu no comando, na esperança de enfim conquistar algo além do segundo lugar de 2013/14 e 2014/15. A base era praticamente a mesma, em destaque para as adições de Mohamed Salah e Edin Dzeko. Com Francesco Totti em declínio físico, o ataque era o grande porém da Roma de Garcia. Um time sólido, pragmático, era seguro defensivamente, conseguia controlar as partidas com seu meio-campo, mas nem sempre o ataque correspondia.

E começou 2015/16 exatamente assim. Até a 10ª rodada, liderou o campeonato, mas perdeu força quando a Liga dos Campeões começou e desgastou a equipe. Embora fosse grande, teve problemas de lesões de peças importantes. Sem suas lideranças em campo, a falta de atitude pesou e a confiança foi perdida com resultados negativos. Garcia perdeu o controle e foi demitido após os 19 jogos do primeiro turno.

A diretoria foi rápida para chamar um velho conhecido, Luciano Spalletti. Com o toscano, Sabatini novamente foi ao mercado para remontar a equipe. Diego Perotti, Stephan El Shaarawy e Ervin Zukanovic chegaram sem barulho, mas o argentino e o italiano se mostrariam fundamentais na recuperação giallorossa.

Spalletti começou com um empate, uma derrota e uma vitória, ainda aos trancos e barrancos tentando encontrar uma forma de jogar e extrair o melhor dos seus jogadores. Fez vários testes e opções ousadas até encaixar de vez o jogo que queria. Essa vitória, aliás, contra o Frosinone, em 30 de janeiro, foi a primeira de 14 nas últimas 17 rodadas. Nas outras três, empates.

Uma mini Juventus, que vingou Inter e Fiorentina – roubaram a liderança na 11ª rodada e se mantiveram no topo até Napoli e Juventus ultrapassarem -, assegurou vaga na Liga dos Campeões mais uma vez e por muito pouco não chegou no time da Campânia, apenas dois pontos de distância na última rodada.

Se o Napoli perdeu ritmo, a Roma de Spalletti assumiu bem o posto com um ótimo futebol. Em muitos momentos, conseguiu o domínio e controle dos jogos com a posse de bola administrada por Miralem Pjanic, se afirmando como um grande regista. Ao seu lado, Perotti surgiu como um playmaker que não tinha visto em Sevilla e Genoa, quando era um ponta criativo, mas focado em jogadas individuais, carregando a bola e cortando para o pé destro para passeis finais ou chutes de fora da área.

Quase como Hamsík, Perotti rodava por todo o campo, liderando a saída com Pjanic e levando a bola para o último terço. Nessa faixa do campo, se destacaram El Shaarawy e Salah. O primeiro, desacreditado depois de longo tempo lesionado no Milan e passagem sem destaque pelo Monaco, o segundo também em baixa após primeira parte de temporada fraca.

Muito rápidos e espertos para desmarques e se posicionarem no limite da última linha adversária, passaram a receber ótimas bolas e finalizar jogadas da dupla Pjanic-Perotti. Nem mesma a ineficiência do pivô e falta de precisão de Dzeko atrapalhou o ritmo, com o bósnio eventualmente também marcando gols. O toque final foi a ressurreição de Totti, após longo tempo lesionado e problemas com Spalletti. Se as vitórias demoravam para sair, Il Capitano surgia no fim para ganhar.

Um ótimo time que durou 19 rodadas, mas que promete manter o nível em 2016/17. A ver se a romada não virá outra vez.

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