Revisão da Serie A 2015/16, parte 2

Roberto Mancini, treinador da Inter (Getty Images/Zimbio)
Roberto Mancini, treinador da Inter (Getty Images/Zimbio)

Voltando pra revisar a Serie A 2015/16, agora sobre os outros “europeus”, as equipes que se classificaram para a Liga Europa e/ou estiveram na briga até as últimas rodadas. São três decepções e uma surpresa pra lá de agradável.

Inter

A Inter apresentou diversas caras na temporada. O resultado final, não à toa, é controverso. O time de Roberto Mancini terminou o ano na liderança, com 36 pontos em 17 rodadas, sendo 11 vitórias, três empates e três derrotas, além de 23 gols marcados e 11 sofridos. Desde 2009/10, ano do triplete nerazzurro, isso não acontecia na Pinetina.

Depois de 38 rodadas, fez 67 pontos, com 20 vitórias, sete empates, 11 derrotas, 50 gols marcados e 38 sofridos. Melhor que os 67 desta temporada, só em 2010/11, quando foi vice-campeão e pela última vez se classificou para a Liga dos Campeões, justamente o objetivo desta temporada, que ficou 13 pontos atrás, da terceira Roma, com 80.

Também desde 2010/11, a Inter não vencia 20 ou mais partidas. Por outro lado, voltou a sofrer 10 ou mais derrotas, o que só deixou de acontecer em 2013/14 e 2010/11 nesta década. A ironia permanece: nunca a Beneamata marcou e sofreu tão poucos gols nos anos 2010 – 50 gols marcados e 38 sofridos.

A segunda equipe que fez menos faltas, com média de 13,2 faltas cometidas por jogo, atrás somente do Napoli, a Inter foi a segunda que mais levou cartões vermelhos: 12, três de Murillo, o jogado mais expulso no campeonato.

Essas são muitas das ironias que fazem a campanha da Inter bizarra. O quarto lugar, vindo da oitava posição e 12 pontos a menos na última temporada, certamente não é uma colocação ruim, mostra crescimento depois da enésima reformulação de elenco interista. Mas é a Inter, que brigava por Liga dos Campeões e ficou a 12 pontos do terceiro. E é a Inter, 18 vezes campeã italiana, que vive uma década horrível depois do auge nos anos 2000 e não vence um título desde 2010/11.

O time de Mancini certamente não empolgou, mas teve momentos de grandeza. Os 67 pontos não saíram do nada, assim como os 38 gols sofridos e 16 clean sheets. Em muitos momentos mostrou ser um time, na concepção da palavra, organizado, com ideia do que fazer, enfim, com planejamento e estratégia. Venceu, por exemplo, Napoli e Roma assim.

Seja defendendo em bloco baixo, com duas linhas compactas e estreitas, sem conceder muito, ou às vezes até sendo superada, e Samir Handanovic garantindo vitórias e clean sheets. Ou pressionando alto, com agressividade e organização, subindo todas as linhas para sufocar o adversário e roubar a bola no campo de ataque, produzindo alguns gols assim.

Em muitas outras vezes, porém, pareceu não ter ideia nenhuma do que fazer. Desorganizado, sem atitude, sem confiança, perdido em campo e entregue ao adversário, independente de ser grande ou pequeno, como nas derrotas para  Juventus, Fiorentina, Milan ou Torino, Genoa e Lazio.

Assim como teve pontos altos, a Inter sofreu muitos fracassos, simbolizados nas 11 derrotas, sendo oito para adversários que terminaram o campeonato entre as 10 primeiras posições, sem esquecer de empates com Verona, Carpi, Palermo, Sampdoria e Atalanta.

Para relembrar um pouco a campanha bizarra: nas cinco primeiras rodadas foram cinco vitórias, seguidas de quatro partidas sem vencer, mais quatro vitórias seguidas, quando assumiu a liderança, um misto de três vitórias e três derrotas entre novembro e janeiro, exatamente quando começou a cair pra valer.

Em 19 rodadas, 12 vitórias, três empates e quatro derrotas. Nas 19 rodadas seguintes, oito vitórias, quatro empates e sete derrotas. Tendo marcado 24 gols e sofrido 12 no primeiro turno, marcou 26 e sofreu outros 26. No fim das contas, o que poderia ser um ano fantástico se tornou outra temporada medíocre, que só não terminou pior graças ao desempenho ainda mais fraco de Fiorentina e Milan.

Fiorentina

Um time, dois turnos, duas caras. Ainda mais impactante que a campanha da Inter, só a Fiorentina. Juntamente com os nerazzurri, esteve no topo da tabela até a virada do ano, inclusive liderando por algumas rodadas, mas sucumbiu com um desempenho horrível em 2016. Vice-líder até o Natal, na 19ª rodada já era quarta, com 12 vitórias, dois empates e cinco derrotas. Terminou o campeonato com 18 vitórias, 10 empates e 10 derrotas, ou seja, seis vitórias, oito empates e cinco derrotas no returno.

Se a Inter era líder sem empolgar, com seu pragmatismo e vitórias por 1 a 0, a Fiorentina era o melhor ataque junto com o Napoli. Em pouco tempo, Paulo Sousa conseguiu montar uma equipe bem organizada, que fazia um pressing muito agressivo e estava sempre compacta, com os setores próximos e os jogadores sempre criando triangulações para circular, reter e acelerar a bola, com um jogo de alto ritmo e envolvente no último terço.

Seja qual fosse a formação de Sousa, o time prioritariamente partia de um 3-4-2-1. Ou 4-2-3-1. Enfim, um dos sistemas híbridos e futebol que mais chamaram a atenção na primeira parte da temporada. Com a bola dominada, defesa a três e alas para dar amplitude, segurança na saída de bola e linhas de passes laterais, Milan Badelj organizando o jogo, ligando o primeiro passe de Gonzalo Rodríguez e o playmaker Borja Valero, que saía do último terço para rodar por todo campo até voltar ao setor e distribuir assistências.

Com Valero, Matías Vecino e Josip Ilicic davam peso ao jogo por dentro, prontos para rebotes e tabelas com os alas, Federico Bernardeschi e Marcos Alonso, esses as principais fontes de desequilíbrio com a bola, seja recebendo em profundidade e cruzando para trás (Alonso), seja cortando para dentro em busca de desmarques ou espaço para chutar de fora da área. Um dos artilheiros até o Natal, Nikola Kalinic, era a referência entre os zagueiros adversários, prendendo sua atenção, buscando desmarques, amortecendo bolas longas e completando cruzamentos.

Mas tudo isso sumiu em 2016. A Fiorentina se tornou um time previsível, com mais de 60% de posse de bola e raramente chutando ao gol, se tornando presa fácil para controlar sem a bola, fazendo um catenaccio simples que não permitia trocar passes a partir da intermediária ou imprimir o ritmo alto que marcou no primeiro turno.

Badelj, o homem da organização, se lesionou, assim como Vecino e Alonso, enquanto Bernardeschi, Ilicic e Kalinic caíram de ritmo e abandonaram Valero, o único que ainda manteve um bom nível durante o campeonato, mas que raramente encontrou em Mauro Zárate e Cristian Tello, contratados no inverno, fontes de gols e vitórias. Atrás, os zagueiros passaram a errar mais, sem confiança.

Ambicionando o título no início e almejando a vaga na Liga dos Campeões, que não disputa desde 2009/10, a Fiorentina acabou com a vaga na Liga Europa novamente. Não é um resultado ruim para os viola, de forma geral, mas poderia ser melhor, considerando que vinham de três temporadas garantindo o quarto lugar, com Vincenzo Montella.

Sassuolo

À primeira vista, o sexto lugar do Sassuolo pode surpreender alguns. Se considerar o histórico e a campanha dos neroverdi, porém, verá sentido. Campeão da Serie B em 2012/13, o time de Eusebio Di Francesco estreou na Serie A na temporada seguinte, acumulou muitas derrotas, mas deu mostras de crescimento, com toda sua juventude potencial e conseguiu se manter na elite, a dois pontos da zona de rebaixamento.

No ano seguinte, sofreu nove derrotas a menos, venceu mais partidas e apesar da irregularidade, teve temporada mais tranquila, sem correr risco de rebaixamento, além do amadurecimento dos jovens, juntamente com a contratação de jogadores acostumados com a Serie A, e que tiveram bom rendimento no Mapei Stadium.

Para 2015/16, manteve a base e colheu os frutos. Um time essencialmente italiano, com apenas três estrangeiros, parceiro da Juventus para desenvolver jovens, um promissor treinador e destaques entre os melhores do campeonato na defesa, meio-campo e ataque. A irregularidade de antes deu lugar ao pragmatismo, sofrendo apenas nove derrotas no ano e garantindo 61 pontos, com 16 vitórias e 13 empates. A defesa sofreu menos gols e o ataque, apesar de pouco brilhante, manteve a média.

O mais interessante é observar que o Sassuolo raramente mudou de colocação na tabela. Líder nas duas primeiras rodadas, teve o sétimo lugar como a pior posição, posto que abandonou na 36ª rodada, quando passou o Milan para assumir o sexto lugar na esperança de ir para a Europa pela primeira vez. Já garantiu a licença da Uefa e só precisa que o próprio Milan, clube que proprietário Giorgio Squinzi é torcedor, perca para a parceira Juventus na final da Coppa Italia.

Nesta temporada, sem Simone Zaza, Di Francesco não teve um grande centroavante, revezando Grégoire Defrel, Diego Falcinelli e Marcello Trotta, que tiveram bom desempenho, mas não na média do antigo camisa 10, assim como os craques Domenico Berardi e Nicola Sansone tiveram ano abaixo da média, o que prejudicou consideravelmente o desempenho ofensivo neroverde.

Em contrapartida, o Sassuolo esteve muito bem defensivamente. Andrea Consigli teve seu melhor ano profissionalmente, apesar de algumas falhas, Paolo Cannavaro e Francesco Acerbi fizeram dupla de zaga muito segura, o segundo inclusive retornando à seleção italiana justamente, enquanto Sime Vrsaljko e Federico Peluso mantiveram a regularidade nas laterais, o primeiro melhor ofensivamente, o segundo melhor defensivamente.

O meio-campo também não ficou para trás. Francesco Magnanelli, na sua 11ª temporada no clube emiliano, se mostrou um mediocentro ainda mais confiável, líder das ações do time e muito bem defensivamente. Simone Missiroli, apesar de ter tido menos gols e assistências, teve um papel importante no jogo de Di Francesco, e foi bem substituído pelo jovem Lorenzo Pellegrini. Alfred Duncan, contudo, foi o grande destaque. Com todo seu vigor físico, deu outro ritmo ao time e ainda apareceu ofensivamente, com cinco assistências.

O jogo de Di Francesco, inspirado por Zdenek Zeman, por quem foi treinado na Roma, cresceu em 2015/16, amadureceu para a Serie A. Mais compacto, sabendo defender-se em bloco baixo, mas sem abandonar o pressing, mantendo o jeito de atacar agressivo, mais direto, sem reter muito a bola. O desempenho contra grandes mostra isso.

Contra Juventus e Napoli, vitória em casa e derrota fora, com a Roma, empate fora e derrota em casa, duas vitórias sobre a Inter – vingando o início desastroso na Serie A, quando perdeu duas vezes por 7 a 0 para o time de Walter Mazzarri -, empate em casa e derrota fora contra a Fiorentina, derrota fora e vitória em casa diante do Milan e duas vitórias sobre a Lazio.

Certamente não é à toa que o Sassuolo termina o ano na sexta posição e esperando uma vaga na Liga Europa. Di Francesco renovou o contrato e o clube mostra ter uma boa estrutura para manter a pegada, com bons investimentos do ambicioso Squinzi e muitos jovens para lucrar ou crescer junto.

Milan

O Milan começou a temporada prometendo grandes reforços, à espera de investimentos estrangeiros, como do empresário Bee Taechaubol, que negociação com a Fininvest que não deram certo com a falta de confirmação financeira do tailandês. Acabou gastando bastante, mais do qualquer outro clube italiano, e pode terminar a temporada sem vaga europeia e a incerteza de que terá novos investidores, com um buraco enorme nas contas.

Pela enésima vez, Silvio Berlusconi colocou suas asinhas de fora para mexer no clube e piorar a situação (aqui), demitindo Sinisa Mihajlovic para trazer um ex-jogador e treinador da base, Cristian Brocchi. Medidas que só pioram a situação em Milanello, em mais um ano medíocre. Se não vencer a Juventus na final da Coppa Italia, resultado por si só surpreendente, estará novamente fora da Europa e dependente do dinheiro de patrocinadores e televisão.

Embora tenha levado algum tempo, Mihajlovic deu padrão, exatamente como fez na Sampdoria, organizando a defesa, dando solidez e pragmatismo ao time, então encaixando o ataque com Giacomo Bonaventura e Carlos Bacca, os pontos altos da temporada juntamente com o garoto Gianluigi Donnarumma, revelação da temporada, assumindo o gol milanista com apenas 16 anos.

Um time simples, mas organizado e estratégico, que garantiu a final na copa e recuperação no campeonato, recolocando o rossonero na briga por vaga na Liga Europa. Mas outra vez, os problemas físicos atrapalharam a sequência e a falta de recursos no banco para repor lesionados e descansar titulares, assim como a saída de Mihajlovic minou de vez qualquer chance de algum, mesmo ínfimo, sucesso.

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