As incoerências de Conte e a Itália da Euro 2016

Os 23 de Conte e... Tavecchio (Foto: Divulgação/FIGC)
Os 23 de Conte e… Tavecchio (Foto: Divulgação/FIGC)

Desde a passagem pela Juventus como treinador, quando realmente apareceu para o mundo do futebol, Antonio Conte sempre se mostrou um treinador pragmático, com poucas decisões inesperadas e arriscadas, apostando no seu trabalho e naquilo que foi planejado e confiava. Uma fórmula simples, mas eficiente e vencedora.

Na seleção italiana, a história não foi muito diferente. Não à toa, bebeu na fonte do time que deixou para Massimiliano Allegri, montando a equipe azzurra em torno dos bianconeri e o sistema que não apenas conhecia, como foi fundamental na construção e consolidação. Nas últimas duas temporadas, a base foi justamente Buffon, Barzagli, Bonucci, Chiellini e Marchisio.

Quando não teve à disposição o trio Barzagli, Bonucci e Chiellini, o que aconteceu com alguma frequência por causa de problemas físicos, viu como oportunidade para resgatar suas preferências táticas que diluíram aos poucos em Vinovo, de um futebol mais agressivo e intenso. Com os jovens, testou outros sistemas, como 4-3-3 e 4-4-2, mas a maior parte em amistosos, apostando na base consolidada no 3-5-2 nas eliminatórias.

Em 2016, porém, muita coisa mudou. Além do histórico de Barzagli e Chiellini, se lesionaram os importantes Darmian, Verratti, De Rossi e Marchisio, além de Perin, Thiago Motta e Montolivo. Em meio à tudo isso, a negociação para se tornar o novo treinador do Chelsea, tendo em vista que seu contrato com a FIGC só duraria até a Euro e o próprio descartou continuar no futebol de seleção.

Sua frustração em Coverciano e a confirmação do acerto com o clube inglês acabaram por mudar ainda mais a situação da seleção italiana. Muitos dos lesionados se recuperaram, exceto Verratti, Marchisio, Montolivo e Perin. Os dois primeiros, peças fundamentais para o meio-campo e praticamente insubstituíveis, que mudam os planos e estratégia do time. Dos que se recuperaram, De Rossi e Motta, em especial, os únicos meio-campistas de maior nível, estão longe de uma boa condição física.

E aqui engomados nos ternos italianos (Foto: Divulgação/FIGC)
E aqui engomados nos ternos italianos (Foto: Divulgação/FIGC)

Nas últimas entrevistas, Conte fez questão de atestar que convocaria os jogadores em melhor forma – física e técnica -, privilegiando também por um grupo versátil, que poderia cobrir mais de uma função em diferentes posicionamentos. Os sistemas trabalhados, não à toa, exigem isso: 3-5-2, 4-4-2 ou 3-4-3, sem mudar a formação ou estratégia, analisando o adversário e contexto.

Sua convocação, final, porém, não encaixa no primeiro ponto: entre os goleiros, Sirigu praticamente não jogou nesta temporada e Marchetti teve desempenho ruim, e na defesa, De Sciglio decepcionou outra vez e perdeu posição. No meio-campo, Motta está se recuperando de lesão e De Rossi passou boa parte do ano lesionado e não recuperou o ritmo quando voltou.

Enquanto Sturaro jogou com pouca regularidade e Parolo caiu consideravelmente de rendimento, Candreva vive má fase técnica. No ataque, Zaza contribuiu vindo do banco, mas também teve poucos minutos, Immobile voltou bem ao Torino, contudo se lesionou e não joga 90 minutos desde março, enquanto Éder teve pouca produção após a transferência na janela de inverno.

Em contrapartida, vemos Acerbi, Criscito, Bonaventura, Jorginho, Giovinco, Berardi e Vázquez entre os recém-convocados fora da lista final. Sem esquecer dos ignorados  Viviano, Sportiello, Mirante, Donnarumma, Consigli, Izzo, Tonelli, Saponara, Pavoletti e Belotti, por exemplo.

Por outro lado, Conte não se contradiz em relação à versatilidade. De Sciglio e Darmian jogam como lateral e ala pelos dois lados, o segundo ainda joga como zagueiro, Chiellini faz o lado esquerdo como zagueiro e lateral, Barzagli o mesmo pela direita e como central também. Candreva faz tudo pela direita, de ala a ponta, assim como Florenzi, que ainda pode jogar por dentro ou eventualmente pela esquerda. Motta e De Rossi são os comandantes do meio-campo e podem cobrir a zaga, enquanto Sturaro e Parolo estão habituados a jogar com meio-campo a dois ou três, o primeiro pela direita e o segundo pela esquerda.

Bernardeschi mostrou versatilidade nessa temporada e jogou bem como ala, ponta e meia-atacante nos dois lados, El Shaarawy fez o mesmo pela esquerda e Giaccherini é bem conhecido, cumprindo todas as funções do lado esquerdo, enquanto Insigne é um ponta pela esquerda com espírito de trequartista, já tendo jogado como meia-atacante e segundo atacante. Éder se notabilizou como segundo atacante, mas joga como ponta pelos dois lados e também como centroavante. Pellè, Immobile e Zaza são centroavantes de estilos diferentes e podem jogar juntos enquanto dupla.

A base do time de Conte (sharemytactics.com)
A base do time de Conte – clique na imagem para ampliar (sharemytactics.com)

3-5-2, 4-4-2 ou 3-4-3, o time de Conte deverá privilegiar por uma postura agressiva com a bola, com muitos ataques diretos e rápidos coordenados por Bonucci, especialmente através de lançamentos e inversões de jogo, contando com a ajuda dos companheiros juventinos Barzagli e Chiellini como opção para abrir o jogo e encontrar alguém entre as linhas, como fazem em Turim.

Decisiva também a participação de De Rossi e Motta, organizando o jogo ou verticalizando as jogadas com os alas e atacantes. Nessa estratégia, fundamentais os alas irem da defesa ao ataque em poucos segundos, assim como Pellè servir como pivô para as bolas longas e referência para a defesa adversário, enquanto Éder e os meio-campistas laterais devem apoiar os alas e o pivô com movimentos verticais e desmarques de ruptura.

Sem a bola, defesa em bloco baixo, revezando entre cinco na primeira linha e três na intermediária ou duas linhas de quatro. Esse é o ponto de confiança de Conte, com o trio juventino que defende muito bem sua área e lideram as basculações defensivas com os alas, que devem alternar entre a primeira e a segunda linha com os meio-campistas conforme o adversário ataca. Um gioco all’italiana adaptado aos anos 2010 que Conte construiu na passagem pela Juventus, aproveitando também conceitos do calcio totale de Arrigo Sacchi. Eventualmente o time subirá a marcação para impor um pressing muito físico.

Mais importante do que tudo isso, o aspecto psicológico. Conte não comandou o time que domina a Itália apenas pela tática, e é um grande motivador, conseguindo extrair muitas coisas de seus comandados. Por isso formou um grupo que conhece e confia, e para evitar um vexame na França ou surpreender pelo fraco nível técnico do time, esse lado será decisivo no desempenho da seleção azzurra.

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